Ivens Roberto de Araújo Mourão
Eu e o papagaio. É a única foto dele. Estou com uma T Shirt da Escola de Engenharia. Esta foto deve ser de 1967.JOVEM GUARDA
Na volta de uma viagem à fazenda, no começo da década de sessenta, papai trouxe um papagaio. Era ainda bem novo. Feio, quase sem pena e de cor mais para cinza do que verde. Mas, logo tomou jeito e ficou um papagaio muito bonito. Passei, então, a ensiná-lo a falar. Comecei com o mais simples. Um assobio: o fiu-fiu. Rapidamente aprendeu. Em seguida ensinei os mais variados assuntos, menos pornografia. Mas, a bem da verdade, ele sabia todas. Não sabia quem tinha sido o professor. Recentemente descobri: as empregadas e o Jeová, um garoto que morava em frente da nossa casa, foram os professores.
As aulas tinham uma técnica toda especial. Quando ele ficava parado, com a cabeça meio inclinada e as penas do cocuruto arrepiadas, era sinal de que ele estava captando a mensagem. Caso a frase tivesse, digamos, oito palavras, você ensinava as duas primeiras. Ele ficava ruminando até que, num dia, soltava aquelas duas palavras. Agora, era chegado o momento de agregar mais duas outras. Com um detalhe: tinha-se que ensinar as quatro. As duas que ele já tinha gravado e as duas novas. Até que um dia você completava a frase toda.
Certo dia papai chegou em casa com uma papagaia. A fêmea não tem as cores fortes do macho e quase não fala (diferentemente dos humanos). Parecia bem mais velha. A idéia era que ele tivesse uma companheira. Mas, esse tipo de ave não procria em cativeiro. Contudo, o papagaio bem que tentou impressioná-la.
Cada um tinha o seu poleiro. Não usavam aquela corrente que costumam prender os papagaios. Ele ficava na parede do quartinho da caixa d’água e ela na parede do banheiro da empregada. Eram distantes uns quatro metros. Mamãe tinha uns arames, em ziguezague para estender roupas. Uma perna começava perto do poleiro do papagaio e terminava próxima do poleiro dela.
Um dia o Louro resolveu visitar a companheira. Com muita dificuldade, com o bico, passou para o arame. E literalmente pendurado pelo bico e pelos pés foi avançando, centímetro a centímetro. Quando atravessou toda aquela distância, com o bico conseguiu se agarrar no poleiro dela. Com um giro passou para o piso. Quando se firmou bem, deu uma balançada nas penas e sentenciou, todo orgulhoso e faceiro:
- É uma BRASA, mora!
O BANHEIRO DA EMPREGADA
A casa na qual morávamos, na Avenida Bezerra de Menezes 1147, era do tipo “moderna”. Foram construídas muitas casas nesse estilo, na década de cinqüenta. Ainda encontramos dessas residências, na Fortaleza atual. A modernidade era que não havia cumeeira. Um telhado traspassava o outro e, na fachada, tinha uns detalhes de pedra. Nós fomos os primeiros inquilinos, desta casa, em 1956. Eram duas casas conjugadas e duas outras voltadas para a rua de trás, Gustavo Sampaio. Entre elas havia um grande terreno que o proprietário nos cedeu, em troca do papai administrar a bomba que elevava água de um cacimbão ali existente, para uma caixa elevada, de seis mil litros, que atendia às quatro casas.
Na parte de trás tinha uma varanda com um banheiro do lado da casa conjugada. Era um banheiro relativamente grande para os padrões atuais, destinado às empregadas. Nele, ao final do dia, papai recolhia todas as gaiolas de passarinhos. Foi um criador desde criança, até o final da sua vida. Ainda restava um, cinco anos após o seu falecimento. Era uma prevenção contra ataques de gatos. Cada gaiola já tinha o seu prego determinado. Ocupava toda uma parede, desde o telhado até a uma altura de uns 60 cm do piso. No chão do banheiro, papai colocava o poleiro do papagaio de tal maneira que ele não alcançasse nenhuma gaiola. Caso contrário, o estrago estaria feito, pois iria quebrar aquelas de taboca e entortar os arames das demais. Provavelmente soltaria todos os passarinhos.
Mas o fato era que o papagaio era revoltado com esta situação. Não sei se por ficar no chão ou por ter que aturar certas companhias e odores... Quando alguém entrava no banheiro e acendia a luz, ele passava a desfiar toda a pornografia que sabia. E o seu repertório abrangia vários temas: política, futebol, conversas do dia a dia etc.No banheiro da empregada ele só falava os chamados “nomes feios”.
O nosso tio Gervásio, irmão da mamãe, morava duas casas após a nossa, com os nossos avós. Ele costumava ir à noite, à nossa casa, entrar no banheiro da empregada, se acocorar junto do poleiro do papagaio e ficar ouvindo a sua cantilena. Ele ria que perdia o fôlego.
Certo dia, à noite, eu ia passando pela varanda indo para o meu quarto, que ficava embaixo da caixa d’água. De dentro do banheiro ouvi a empregada falar:
- Pára papagaio! Deixa disso! Bicho nojento! Pára com isto, nojento! Pára! Pára, eu já falei!
Eu fiquei escutando e percebi que o papagaio não estava falando nada. Pensei: “Que diacho que este papagaio está fazendo para ela está reclamando?” Apurei mais o ouvido e aí, percebi a razão. A cada peido que a empregada soltava ele respondia no mesmo tom e altura. Neste caso, era aquele meio frouxo, que vinha acompanhado de matéria. E o papagaio:
- Brufff, Brufff...
A LADY
O meu irmão Marcelo, quando estudante de medicina, resolveu fazer uma viagem na base da carona. Viajou com o colega Firmo, atualmente neurologista. O primeiro trecho, até o Rio de Janeiro, foi de avião do DNOCS, conseguido pelo nosso tio Genésio. De Porto Alegre foram até Buenos Aires e voltaram por Brasília. Fizeram amizade com um casal gaúcho, caso não esteja enganado, na viagem de Montevidéu para Buenos Aires.
Nas conversas sobre o Ceará o Marcelo contou algumas estórias do papagaio. Então, a Dona Leda (parece-me que este era o nome dela) fez questão de conhecer o papagaio, ao vivo! O certo é que, meses depois, o casal aportou em Fortaleza.
Naquela época de turismo engatinhando, deve ter sido o primeiro casal gaúcho que veio ao Ceará. Mas, com certeza, foi o primeiro e único cuja atração turística era o papagaio.
Papai e mamãe acompanhando o casal de gaúchos no monumento a Iracema, em outubro de 1972. Dona Leda é a que está de blusa vermelha.Eles eram de origem italiana e a Dona Leda a elegância em pessoa no modo de falar, de vestir, de andar, de sentar. Ou seja, parecia um lady inglesa. Ofereceram um jantar aos nossos pais em um restaurante italiano e programaram nos visitar à noite, para conhecer o papagaio. Não tenho certeza se eles foram jantar lá em casa.
E eu, pensando: “Este negócio não vai dar certo. Não vai prestar.” Mas, não disse nada.
Foram recebidos na sala de estar. Conversa vai, conversa vem, e a Dona Leda:
- Dona Giseuda, e o papagaio?
Então, mamãe foi acompanhá-la para apresentá-la ao papagaio que, naquele momento, já estava no... BANHEIRO DA EMPREGADA!
E eu acompanhando as duas e pensando: “Isto não vai dar certo.” Mamãe abriu a porta do banheiro, acendeu a luz e as duas entraram. A Dona Leda agachou-se para falar com o papagaio, com toda a delicadeza:
- Oi lourinho, como vai você?
E ele, de primeira:
- Vai tomar no cu!
Ela ficou tão desconcertada que se levantou de chofre e exclamou:
- Ui, e ele fala!
Acho que ela quis dizer: “Ele fala pornografia!”
A GALINHA VERDE
Neste grande terreno que nós usávamos, como disse anteriormente, mamãe criava muitas galinhas do tipo “peduro”. Eram soltas e tinham uns ninhos onde iam depositar a sua produção de ovos. Uma delas, uma baixinha, um dia foi escolhida para ir para a panela. Eu e o Marcelo apelamos pela sua vida e assim ela foi salva. Morreu de velha. Eu sabia quando ela ia pôr, pois ficava muito inquieta. Então, um dia, resolvi fazer uma experiência científica. A galinha sempre canta quando põe o ovo. E se o ovo desaparecesse, qual seria a reação dela? Peguei uma lata de presuntada vazia. Aquelas que eram abertas com uma chave. Preguei na ponta de um cabo de vassoura. E esperei a baixinha denunciar que ia pôr. Quando ela se aninhou, ficou com a cabeça para a parede e o fiofó para fora. Como eu queria. Quando o ovo começou a sair eu, mais que depressa, aproximei a latinha e aparei o ovo. De imediato tirei e fiquei observando. Interessante o ovo sai meio mole, quente e bem lubrificado. Logo em seguida, quando esfria, pega a consistência que conhecemos. O instinto manda que ela, com o bico, traga o ovo para debaixo de si. E ela passava o bico e não encontrava nada. E rodopiava, e rodopiava e nada. Ela não cantou, mas fez um canto diferente. Tenho para mim que ela estava dizendo o seguinte:
- Acabei de cagar um ovo e ele desapareceu! Que sacanagem é essa? Eu não estou ficando doida! Estou até sentindo. Roubaram meu ovo, roubaram meu ovo, roubaram meu ovo!
Comandando esta galinhada tinha um galo, destes todo colorido. Orgulhoso que só ele. Só andava com o peito bem estufado. Olhando por cima. O caminhar dele parecia o de um cowboy indo para um duelo. Dava a impressão que andava de sapato alto. Ou seja, era o autêntico dono do terreiro. Nessa ronda que fazia, quando descobria comida no chão, ele avisava para toda a galinhada. É um canto característico. Um cocorocó específico. Traduzido, devia ser o seguinte:
- Ei, pessoal, achei comida! Venham aqui, venham rápido!
Era só ele fazer isso e aparecia galinha de tudo o que era canto, na maior velocidade. Vinha galinha, vinha pinto, vinha frango. E ele ficava todo estufado, olhando de cima para baixo e com um outro canto, talvez dizendo:
- Podem comer, podem comer, eu não preciso, eu não preciso!
Acontece que o papagaio aprendeu direitinho este cocorocó. E vez ou outra ele cantava igual ao galo. Vinha galinha de tudo que era canto. E ficavam embaixo do poleiro do papagaio, procurando o galo e a comida. Nem encontrava um nem o outro. Além do mais, o piso era cimentado e não tinha nada para elas ciscarem. E o papagaio, lá de cima do poleiro, olhando para baixo.
Da mesma maneira como a galinhada, o galo também ouviu aquele canto. E veio, naquele caminhar todo imponente, saber que confusão era essa. Afinal de contas, ele era o único galo do terreiro. Teria aparecido mais um?
O papagaio ficava no quintal da casa, que era pequeno. Tinha um portão, que estava sempre aberto, que fazia a comunicação com o grande terreno. O galo ficou na soleira desse portão e observando aquele “comício” de galinha embaixo do poleiro do papagaio. Era um outro canto. Apenas um có-có-có, compassado. Traduzindo, deveria ser o seguinte:
- O que é que vocês estão fazendo aí, suas idiotas? Eu não chamei vocês. Quem é o galo aqui? Quem é que manda aqui? Vão embora!
E o papagaio olhando para baixo, já quase caindo, observando a confusão que ele tinha armado.
Então, cheguei junto do papagaio e disse:
- Olha, Louro, toma cuidado! O galo pode achar que você é uma galinha verde e vai te passar nos peitos! Vai te comer!
O LOCUTOR
Na década de sessenta, o locutor esportivo Gomes Farias, da então Rádio Dragão do Mar, ficou famoso com um bordão que ele inventou. Durante as transmissões tinha uma maneira toda especial de informar o resultado da partida. Caso estivessem, por exemplo, jogando Ceará e Fortaleza e o Ceará vencendo, antes de dizer o placar ele falava o seguinte:
- E o Fortalêêêêêêêza? Rá, rá, rá, rá! Tá na pêêêêêiiiiiiiaaaaaa!
Ao dizer isto, metade do estádio repetia com ele, pois o radinho de pilha já era largamente utilizado pelos torcedores.
Na nossa casa, todos somos flamenguistas e também torcedores do Ceará.
E o papagaio, apesar de ser, por natureza, periquito, era um fanático rubro negro e alvi-negro. E aprendeu direitinho esse bordão, inclusive o tom de deboche e de gozação. Determinados dias, por decisão própria, ele amanhecia um fanático torcedor do Ceará. E tome peia para o Fortaleza.
Certo dia, ao passar perto do seu poleiro, ouço ele dizer, bem baixinho:
- E o Cearááááá? Rá, rá, rá, rá! Tá na pêêêêêiiiiiiiaaaaaa!
Eu, de imediato, fui nele:
- O que é isto, Louro? Virou a casaca?
E ele continuou dizendo, sempre baixinho. Então, prestei bem atenção e notei que a voz era do Antônio Mendes. Era um funcionário da loja do meu pai e torcedor do Fortaleza. Estava sempre lá por casa fazendo algum trabalho. Principalmente nos nossos aniversários e na casa do Raimundo (meu irmão), trabalhando de garçom. Tanto que, quando saiu da Loja foi trabalhar nessa profissão nos restaurantes do Edílson, irmão da Edméia.
Resolvi, então, ir com todo gás para cima do Antônio Mendes:
- Antônio Mendes, você está ensinando para o papagaio que o Ceará está na peia. Caso você continue ensinando isso eu vou falar para o papai lhe demitir.
Ele não teve como negar, pois o papagaio o denunciava perfeitamente.
Foi só esta vez que o ouvi gozar com o Ceará...
A FUGA
Nós nunca colocamos aquela corrente que costumam prender os papagaios aos seus poleiros. Ele era solto, com liberdade para ir e vir. E vez ou outra ele sumia. Simplesmente voava e ia para o terreno grande que tínhamos. Existia uma grande árvore de azeitona roxa e pés de bananeiras.
A grande dificuldade era encontrá-lo, pois ficava perfeitamente camuflado. Era verde no meio de verde.
Geralmente eu o encontrava assobiando. Ele respondia e assim era possível localizá-lo. Certa vez nada fazia o papagaio se denunciar. Já estávamos nos convencendo que, desta vez, ele tinha voado para longe. Então, o Marcelo teve a idéia de dizer, bem alto:
- E o Fortalêêêêzaaaaa??????
De imediato ouviu-se uma voz vinda do alto de uma última folha de uma bananeira:
- Rá rá rá rá, tá na pêêêêêiiiiiiiiaaaaaaa!
O CORTE
Quando o descobríamos em meio à folhagem, estendíamos uma vara para que ele passasse para ela e o trazíamos de volta ao chão. Às vezes ele descia rindo:
- “Rá, rá, rá, rá, rá,”
Estava querendo dizer:
- Bando de abestados. Só me acharam porque eu quis! Duvido que vocês me achem no meio dessa folhagem!
Nesse momento, papai era taxativo:
- Precisa cortar a asa dele!
A técnica era cortar apenas uma asa, pois assim ele descompensava e não conseguia voar. Caso cortasse as duas ele ainda assim voava.
Papai se cercava de todos os cuidados para não levar uma bicada dele. Com uma toalha de rosto ele segurava o papagaio com a mão direita e, com a esquerda, cortava uma asa. Nesse momento o papagaio ficava nos maiores gritos. O quarteirão inteiro ouvia.
Vale ressaltar que o papagaio tinha gravado na sua mente os mais variados temas: política, futebol, assobiar o hino do Flamengo, imitar a vizinha, pedir café, derrubar a ditadura etc. Quando papai o soltava ele passava a descarregar todo o seu arquivo de pornografia. Era seu filho dessa, filho daquela outra; seu isso, seu aquilo outro; vai dar aquilo, vai tomar acolá. Tudo isto dito num tom de raiva e revolta.
Papai se sentia ofendido com aqueles desaforos e acabava dizendo:
- Dê-se a respeito seu bicho nojento, sem-vergonha!
E jogava a toalha nele. O papagaio dava um salto para o lado, e tome nome feio.
À proporção que o sangue ia esfriando, ele ia espaçando os xingamentos. Aqui e acolá ele soltava alguma coisa como:
- Filho da puta!
A RAPADURA
Mamãe tinha uma cozinheira que eu não nutria a menor simpatia por ela. A comida dela era horrível! Era uma “frogoió” (loura do cabelo pixainho) e grandona. Era apaixonada por um padre. É a mesma da estória do Banheiro. Eu tinha bastante razão.
Em 1968 fui a São Paulo fazer um estágio no Escritório de Cálculo do Dr. Augusto Carlos Vasconcelos. Na volta trouxe para mamãe um belíssimo prato para bolo, de cristal da Boêmia. Ele ficava em cima da geladeira sobre uma toalha. Um dia a idiota puxou a toalha e o prato veio junto. Então, vi, estupefato, aquele prato se transformar em centenas de pequenos cristais. E mais ainda, ao ver aqueles pedaços serem juntados numa pá e depositados na lixeira.
O papagaio não gostava dela. Estava sempre a descompô-la, no meu lugar. Um dia, estava na cozinha quando ela foi levar café e pão para o papagaio. Quando ela se aproximou ele começou a xingá-la. Ela não entendeu, mas eu sabia o que ele estava dizendo. Por isso, fiquei observando de longe. E ela:
- O que é que o lourinho quer? O lourinho quer rapadura, é? Vou trazer um pedacinho para você, viu meu louro?
Quando ela percebeu o que ele estava descompondo, jogou o pão e o café nele e disse:
- Bicho imoral! Nojento! Sem vergonha!Safado!
E ele continuou a descompor:
- Vai dar a bunda! Vai dar a bunda! Vai dar a bunda!
O GOLEADOR
No grande terreno que usávamos, implantamos um campinho de pelada. Na minha época de menino, qualquer espaço plano era suficiente para improvisarmos um campo de futebol. Duas pedras eram bastante para marcar as traves. O Marcelo, certa vez, voltando da padaria não resistiu a um apelo por uma partida. Fez dois montinhos de areia e enfiou as bisnagas de pão em pé, demarcando as traves...
Hoje em dia, não me conformo quando vejo as crianças aproveitando espaços, até gramados, para jogar voleibol. Para nós, isto era jogo de mulher. Homem jogando com as mãos eram desviados, ou seja, viados! Ainda hoje, quando vejo esses grandalhões da Seleção do Bernadinho, fico pensando: “Devem ser um bando de baitolas” As nossas traves eram aqueles de pau que usam para escoramento em construção. O travessão era uma corda, conforme podemos ver na foto abaixo.
Excelente foto colhida pelo primo do papai, Antônio Mourão, aliás, ótimo fotógrafo. Ele morava numa das casas da Gustavo Sampaio. Conseguiu flagrar na altura máxima do salto, quando joguei a bola de borracha para escanteio. Tudo foi posado, pois o Marcelo era quem arremessava a bola com a mão.Imaginei, então, fazer umas redes para as duas traves. E tinham que ser iguais às do Maracanã. Esta, possibilitava estufar as redes, amortecer a força da bola e prendê-la. Por isso, o Jorge Cury pôde criar as expressões: “Estufou as redes!” ou “A bola está dormindo, no fundo da rede!”.
A rede do Maracanã tinha quatro partes. A superior, as laterais e a do fundo. Essa era um retângulo, cujas dimensões eram bem maiores que a largura e altura da trave. Desta maneira, ela ficava sobrando e arrastando no chão. Somente assim, conseguia amortecer os chutes e prender a bola. Atualmente as redes são esticadas e a bola bate e volta. O Maracanã voltou a ter a rede no antigo estilo, mas piorada. No meu entender, a melhor é a do Mineirão. A bola pode vir com o chute do Nelinho, mas fica “aninhada”, outro termo dos locutores esportivos.
Mamãe tinha duas cadeiras de balanço de tucum. Iam ser jogadas fora, de tão velhas. Fiquei com elas e o desmonte representou dois rolos de fio de tucum, um para cada rede.
Com aquela metragem disponível, dimensionei as duas redes (ia ser mesmo engenheiro). Quando dei o primeiro nó, ele escorregou. Pedi para o papai me ensinar o “nó de porco”. Também não funcionou. Então me lembrei que tinha um “Jornal dos Sports”, e na sua primeira página, havia um desenho (a bico de pena), do Castilho (goleiro do Fluminense e da Seleção) dentro da rede, segurando uma bola. Pensei: “Talvez dê para descobrir como é o nó”. Observei bem e, após umas duas ou três tentativas, o nó funcionou! Logo eu estava construindo as redes numa “linha de montagem”. Em pouco tempo pude montar as redes nas duas traves.
Foto das traves com a rede. Observem a sombra. Foto colhida com uma maquininha caixão. Ela não permitia o mais leve movimento. A bola, o Marcelo e o Mendelssohn, estão rigorosamente estáticos. Interessante que, mesmo assim, a idéia de movimento é perfeita. O Mendelssohn vibrando com o gol marcado e o Marcelo, tentando, desesperadamente, alcançar a bola que se dirigia para o fundo da rede...Papai comprou uma bola de couro, menor do que a oficial. Dessa forma, passei a ter o prazer de ouvir o “chuá” da bola na rede. Fiquei, então, a treinar diversas formas de fazer gol. Uma das minhas especialidades era o chute de três dedos (literalmente, pois era descalço), com a bola fazendo uma curva e entrando no ângulo superior da trave. Sempre imaginava um jogador famoso do Flamengo. Anos depois, em Brasília, este sonho se realizou na sua totalidade, vendo, na televisão, um artilheiro com um nome de quatro letras: Zico!
O papagaio participa também nessa estória...
A notícia de um campinho onde as traves tinham redes logo se espalhou pelo bairro. Chegávamos a fazer torneios, tanto eram os meninos.
O Louro não assistia aos jogos, pois poderia receber uma bolada fatal. Ficava mesmo, no quintal menor, no local habitual, na parede do quartinho da caixa d’água. Mas, ele não se desgrudava do que estava acontecendo. Quando alguém marcava um gol e o time todo comemorava, ele também acompanhava, mas um pouco diferente:
- Gôôôôôôôôl de Peléééééééé´!
A MODELO
Como já foi dito, o poleiro do papagaio ficava na parede do quartinho da caixa d’água. Era usado para despejos, e lá estava instalada a bomba, que elevava a água da cacimba para a caixa.
Um dia, fazendo a bomba “pegar”, observei o grande pé direito desse quartinho. Cerca de cinco metros. As dimensões eram 2,5 x 2,5m. Achei que, passando um tablado, na metade da altura, daria para fazer um bom quarto de estudos. Fiz o projeto, mostrei para o papai, que aprovou na hora. Ele mesmo executou, pois era exímio carpinteiro. Contou com a ajuda do Marcelo, que herdou esse talento. Terminou virando o meu apartamento, onde morei o ano do cursinho da Sudene (1963) e os cinco anos da Escola (1964 a 1968). Nele, coloquei uma lousa verde, a estante dos livros, um mapa geológico do Brasil pregado no teto e uma mesa, junto à janela. À noite, esta mesa rebatia contra a parede, possibilitando armar a rede para dormir. Um detalhe da estante: constituíam-se de prateleiras, penduras na parede, numa posição inclinada com relação à vertical. Assim, os livros ficavam “presos” pela força da gravidade! Coisas de estudante de engenharia...
Era também ecológico. Não tirava as teias de aranha. Elas tinham a função de capturar as “muriçocas”...
A escada, quase na vertical, tinha batentes largos, de tal maneira que eu descia com grande agilidade. E todas as vezes que passava pelo papagaio, ele dizia:
- Roberto!
Eu sempre respondia:
- Oi, Louro!
O interessante é que ele deduziu que eu me chamava Roberto. Ninguém ensinou.
Quando casei, em 1971, não levei o papagaio para o apartamento. Ele ia morrer de tédio. Passava o dia fora, trabalhando, e a Edméia ficava metade do dia na Faculdade de Pedagogia. Ele não ia ter com quem conversar. Na casa dos meus pais havia muita gente, além dos vizinhos, que ele imitava, o galo que, vez ou outra ele sacaneava e muitos passarinhos. Acredito que ele devia também imitar o canto de vários deles. E o fazia de uma maneira tão perfeita, que nunca notei. Se ele imitava o galo, quanto mais os passarinhos!
Quando ia visitar os meus pais e ele ouvia a minha voz, lá na sala de estar, ele não pensava duas vezes. Simplesmente se jogava do poleiro ao chão. Estava sempre de asa cortada. Literalmente, se estatelava no piso. Chegava a rolar. Logo se recompunha, dava uma balançada nas asas e se dirigia à área de serviço. Saltava o batente de uns 30 cm. Atravessava a área de serviço e dava mais outro salto, de 5 cm, para o piso da casa. E saía andando pelo meio dela, chamando:
- Roberto! Roberto! Roberto! Roberto!
O seu caminhar era bem característico. Suas passadas eram sempre sobre uma linha reta imaginária. Um pé sempre voltado para o lado contrário. Ou seja, o direito voltado para a esquerda e o outro, ao contrário. Isto fazia com que o seu rabo fizesse movimento alternado. Para esquerda e para a direita.
Só parava de me chamar quando me achava. Eu o recolhia com a mão, mas não permitia agrados. Nada de beijinhos. Às vezes, deixava que eu coçasse o cocuruto da cabeça dele. Mas o fazia com extremo cuidado. Logo, logo, ele achava que aquilo era uma viadagem e tentava me beliscar. Tinha que ser rápido, para não ter um dedo quebrado.
Recentemente, assistindo a uma entrevista de uma modelo brasileira, ela comentava que ninguém conseguia imitar o caminhar de uma sua colega, muito famosa. Quem tentasse, corria o risco de se enroscar nas próprias pernas e pagar o mico de um tombo, na passarela.
Em seguida, passaram a mostrar cenas dessa modelo desfilando, com o seu caminhar que virou marca registrada. Então, dei um murro no sofá e exclamei:
- Que sacanagem! O caminhado do Louro foi copiado pela Giselle Bündchen!!!
O TORCEDOR
Uma das primeiras aulas que ministrei ao Louro foi assobiar o Hino do Flamengo. Cantar, com a minha voz, seria uma piada de papagaio. Ensinei o trecho que diz:
Flamengo, Flamengo,
Tua glória é lutar!
Flamengo, Flamengo,
Campeão de terra e mar!
Ao final, eu dava um assobio curto, como se fosse um ponto final. E ele repetia do mesmo jeito.
Para o Ceará tinha o bordão do Gomes Farias:
E o Fortaleza?Rá, rá, rá. Tá na peia!
Havia, também, o grito da torcida:
Ceará! Ceará! Ceará!
Em certos dias, ele amanhecia o próprio torcedor fanático. Era uma alvorada com o hino do Flamengo, os xingamentos ao Fortaleza e o grito da torcida do Ceará. Interessante que ele não misturava os temas. Quando era futebol, era só futebol. Nesse conjunto ele, às vezes, incluía um “Gol de Pelé!”
O Edmilson, irmão da Edméia, pode ser classificado como um torcedor fanático do Flamengo e do Ceará. Uma vez ou outra ele se envolvia em confusões no PV (o velho estádio de futebol de Fortaleza), principalmente querendo agredir juizes “ladrões”. Certa ocasião o juiz partiu para o revide. Só não consumou a agressão por notar sua deficiência física e reconhecê-lo como o filho de um seu amigo, Sr. Edgard.
O juiz, então, recomendou ao pai dele, que não o deixasse mais ir ao estádio, pois poderia ser agredido por alguém que não levasse em consideração sua deficiência. A mãe, Dona Estela, que tinha solução para tudo, resolveu contratar (com anuência do Sr. Edgard) um segurança para o Edmilson. Com um detalhe: ele tinha que dizer que era torcedor dos mesmos times dele e não podia falar que era segurança.
Assim, nos dias de jogos, a Dona Estela sempre induzia o segurança a pedir ao Edmilson para levá-lo ao estádio. Para tanto, dava o dinheiro das passagens, do ingresso e da merenda...
Certa ocasião, estava assistindo a um jogo noturno, no PV. Então, observei uma confusão ao pé da arquibancada. Quem estava lá? O Edmilson, como o pivô de tudo. Estava sem o segurança. Desci aos saltos e o tirei da confusão, puxando-o pela camisa. Ele me reconheceu de imediato e acedeu ao meu comando. Terminamos assistindo em paz ao jogo, no alto da arquibancada.
No final da partida, houve o seguinte diálogo:
- Edmilson, aonde você vai dormir?
- Avisei ao meu pai que ia para a casa do Edilson. Mas, já está tarde e como não avisei para o meu irmão, vou para casa.
- Mas como? Não tem ônibus para a Pajuçara, a esta hora!
- Não, eu pego o do Modubim.
- Mas, Edmilson, do Modubim para a sua casa são quatro quilômetros! Você vai a pé, no escuro, numa estrada deserta?
- É, estou acostumado.
- Não senhor, você vai lá pra casa. Você vai dormir lá.
E assim foi feito.
Parece até que tinha sido combinado. No dia seguinte o Louro amanheceu o próprio torcedor fanático. Foi hino, foi xingamento ao Fortaleza, foi tudo! O Edmilson, então, acordou com aquela alvorada, sentou-se na cama, olhou para um lado e para o outro. Estava meio perdido. Eu, então, disse:
- Calma, Edmilson, é o papagaio!
Ele olhou para mim, abriu um sorriso de orelha a orelha e disse:
- Mas, Roberto, que papagaio legal!!!
O ANUNCIADOR
Às tardes, mamãe sempre mandava preparar uma merenda. Hoje, chama-se lanche. Para tanto, a empregada começava a arrumar a mesa na varanda, colocando a toalha e depois as xícaras, talheres etc. Posteriormente, chamava as pessoas.
O papagaio, astuto que só, percebeu esse processo e passou a se antecipar. Quando via esse movimento, tratava logo de chamar todo mundo, e a toda altura:
- Roberto, café! Marcelo, café! Mendelssohn, café! Dona Giseuda, café!
DONA JÚLIA
A Dona Júlia era a lavadeira e engomadeira lá de casa. Trabalhava uns dois dias por semana. O Marcelo, então, resolveu fazer uma brincadeira com ela. Passava, na televisão, uma série em que o ator principal se apresentava dessa forma:
- Meu nome é Yuman! John Yuman!
Então, ele ensinou e o Louro repetia, com toda solenidade:
- Meu nome é Júlia! Dona Júlia!
A GRAVAÇÃO
Certa vez, Dona Júlia estava partilhando da merenda. Fez, então, o seguinte comentário:
- Dona Giseuda, o cafezinho está fraaaaaco...
No dia seguinte, eu estava estudando inglês com o gravador. Era um Philips daqueles com fita de carretel na parte de cima. Ao ouvir a fita, notei uma interferência com uma voz de alguém. Depois de duas ou três tentativas, percebi que era o papagaio. Só que ele repetia, com a mesma entonação, o comentário da Dona Júlia sobre o café, do dia anterior. Foi a única vez que ele repetiu inteiramente uma frase completa, sem ser ensinado.
- Dona Giseuda, o cafezinho está fraaaaaco...
A VIZINHA
Na casa vizinha à nossa, morava a Dona Eunice. Com ela viviam os filhos: Magalhães, que tinha sido meu colega no Liceu, e a Marta. Veio a se tornar médica, casou com outro médico e cheguei a fazer o cálculo estrutural da residência deles.
Nessa ocasião, ela me contou que, vez ou outra o papagaio a enganava. Ela ouvia a mãe chamá-la: - Marta, ALMOÇAR!
Quando ela chegava na sala de jantar e não via a mesa posta, é que se dava conta:
- Ah! É o papagaio da Dona Giseuda!
O COMUNISTA VERDE
No vestibular de 1963 houve uma reprovação em massa. Na Escola de Engenharia, das 90 vagas, apenas 24 foram preenchidas. Houve uma segunda chamada e ninguém foi aprovado.
O Governo, na época do João Goulart, pesquisou e encontrou o óbvio. Existia um grande fosso entre a preparação do Curso Secundário e o que era exigido nos vestibulares. Somente a elite tinha acesso aos Cursos Preparatórios, criados, principalmente, para preparar os jovens aos exames das Escolas Militares e Banco do Brasil. Com o surgimento da Universidade, passaram também, a aceitar alunos para os exames vestibulares.
O Governo, então, determinou que as próprias Escolas (Engenharia e Agronomia), organizassem com os seus professores esses cursos preparatórios. A Sudene financiava os cursos e propiciava uma Bolsa (salário mínimo), ao estudante, como ajuda de custo.
Para se habilitar, o candidato tinha que se submeter a três provas: conhecimentos gerais, aptidão e teste de inteligência. Tinha, também, de comprovar a renda familiar. Aqueles de alta renda só seriam aceitos se tivessem tido um altíssimo índice de QI.
Esse curso foi o embrião de todos os atuais “cursinhos”, pois a metodologia de ensino, a maneira da avaliação foram extremamente inovadoras. O aluno tinha que manter média sete e, caso aprovado no Vestibular, manteria a sua bolsa durante todo o período do curso. Não poderia ser reprovado nem um ano,
A maioria dos estudantes do Cursinho era de ex-cadetes das Agulhas Negras. Na época, os estudantes eram muito politizados e não se adaptaram ao regime militar, que não permite o pensamento diferente do regulamento do Exército. Houve, então, um pedido de dispensa em massa. Nesse cursinho, eles formavam um núcleo bastante politizado e estavam sempre promovendo algum tipo de manifestação. Existia um anfiteatro ao ar livre, onde havia seguidas assembléias. O local era conhecido como “Kremlin”.
Eu era o protótipo do “alienado”, politicamente falando. Minha única atividade era estudar. Entrei na Escola em março de 1964 e, logo no 1º de abril veio o golpe (a grande mentira). Imediatamente, professores da Escola, que tinham sido nossos professores no Cursinho, começaram a ser presos pelos motivos mais idiotas possíveis. Meu tio Luís, irmão da minha mãe, também. Então foi “caindo a ficha”.
Quando veio o segundo ditador, o movimento estudantil se tornou mais intenso. Continuei, no entanto, à margem de qualquer atividade política. Resolvi, então, fazer do papagaio o militante que eu não era.
Passei, assim, a ensiná-lo as palavras de ordem:
“Abaixo a Ditadura!! Fora Costa e Silva!! O povo organizado derruba a Ditadura!!
Interessante que eu ensinava marcando, com o dedo, o compasso de cada sílaba. E também acompanhava com um movimento da cabeça. E ele aprendeu. Dizia a frase e balançava a cabeça para cima e para baixo e abria as asas, fazendo o mesmo movimento da minha mão. Quando ele estava nessa cantilena, ia de um lado ao outro do poleiro. Ele falava num tom de revolta e gana, como que desejando que aquilo acontecesse de fato.
Algumas vezes ele enroscava no - “Fora Costa Silva!”. Ficava repetindo, como dando a entender que o motivo era mandar o Ditador para os infernos.
Quando ele estava nessa militância, vez ou outra ele soltava a frase:
- “O Reitor é baitola!!”
Era, de fato, o próprio comunista verde!
O COMUNISTA VERMELHO
Da turma dos ex-cadetes das Agulhas Negras, destacava-se o Carlos Augusto Diógenes Pinheiro. Foi um dos colegas mais inteligentes com quem convivi. Tinha uma incrível capacidade de fazer contas de cabeça. O professor colocava uma expressão na lousa. Podia ter raiz quadrada, logaritmo, seno, fração etc. Ele fechava um olho, enquanto eu disputava com ele com a régua de cálculo. Quando eu chegava ao resultado, ele dizia, na mesma aproximação que eu tinha encontrado.
O Carlos Augusto, até o segundo ano da Escola, não tinha o mínimo interesse por política. Era receber o dinheiro da bolsa e correr para ir gastar com “as primas”, nas boates do centro da cidade. Logo ficava sem dinheiro e saía a pedir emprestado a um e a outro. Como o assunto dele era sempre dinheiro, o nosso colega José Flávio o apelidou de “Patinhas”, em alusão ao Tio Patinhas, das revistas do Walt Disney. Até hoje é conhecido assim.
No terceiro ano, ele deu uma guinada de 180°. Passou a ser realmente um militante comunista. Para fazer as provas, nós quase que o obrigávamos. Dávamos um resumo da matéria, ele estudava um pouco e sempre tinha sucesso nas provas.
Um dos fatos que mais me orgulha foi a grande prova de coleguismo da turma, conhecida como T68. Formamos-nos em 1968, o ano que ficou para história do mundo e, no Brasil, o ano do AI5. Estávamos fazendo a última prova na Escola. Era encerrar e não tínhamos mais nenhum vínculo com a Universidade. Foi quando percebemos que não tinha sido permitido que o Patinhas fizesse a prova. Pura perseguição política. Era a cadeira de Higiene, cujo catedrático era o Professor Barbosa, diretor da Escola. Emborcamos a prova e fomos todos à Diretoria exigir que o Carlos Augusto fosse incluído na lista. Só depois da garantia de que ele faria a prova foi que voltamos para a sala de aula.
Realmente, ele conseguiu formar-se. Chegou a trabalhar, mas logo desapareceu na clandestinidade. Não o vimos por muito tempo. Pensávamos até que ele tinha sido morto no Chile. Só veio a aparecer depois da anistia. Passou a ser militante do PCdoB. É o seu Presidente, no Ceará.
Nos últimos anos da Escola, ele sempre dormia em locais diferentes, com receio de ser preso na madrugada, prática comum naquela época. Um dia, foi dormir lá em casa.
O papagaio, como que adivinhando, amanheceu o próprio comunista. Foi aquela alvorada:
- Abaixo a ditadura! Fora Costa e Silva! O povo organizado derruba a Ditadura!
Aqui e acolá ele enroscava no:
- Fora Costa e Silva! Fora Costa e Silva! Fora Costa e Silva!
E também salpicava com um: “O Reitor é baitola!”
O Patinhas acordou assustado. Sentou-se na cama. Olhou para um lado e para o outro, procurando se situar. Então, eu disse:
- Calma, Carlos Augusto, é o papagaio!
Ele olhou para mim, abriu um sorriso de orelha a orelha e disse, igual ao Edmilson:
- Mas, Ivens, que papagaio legal!!!
QUEM MATOU COSTA E SILVA?
Pouco depois do AI5, o Ditador teve um derrame e foi substituído pela junta militar, tão bem denominada pelo Ulisses Guimarães como os “três patetas.”
Não demorou muito e ele foi pagar pelos seus crimes no outro mundo.
Não tenho dúvidas de que os apelos do papagaio foram responsáveis pela sua ida triunfal para o inferno.
Mas, aqui e acolá, o papagaio dizia o “Fora Costa e Silva!”. Eu, então, chegava e dizia:
- Pára Louro! Deixa o homem no inferno! Você quer que ele saia de lá?
QUEM MATOU O LOURO?
Depois dos “três patetas”, veio o pior período da história brasileira. Foram os anos de chumbo, do Médici. Muitos desaparecidos, outros mortos misteriosamente.
O “dedurismo” era uma prática corriqueira. Acredito que alguém dedurou o Louro. Deve ter chegado aos ouvidos da repressão cearense que existia, na Av. Bezerra de Meneses 1147, um comunista verde.
O pobre do Louro deve ter sido mais uma vítima dos “anos de chumbo”. Alguém (um agente secreto da Ditadura) inoculou uma doença nas galinhas e o vírus passou para o papagaio. Em três dias, ele adoeceu e teve a sua voz calada para sempre. A Ditadura foi vingada...
PALAVRAS FINAIS
O Louro teve uma passagem muito rápida entre nós. Mas, nos deixou a certeza de que não era um papagaio comum. Era diferente. Demonstrou que não era, pura e simples, um repetidor de palavras. Agia como se entendesse o que estava falando. Como é que sabia o meu nome? Por que xingava o papai quando a sua asa era cortada? Por que não misturava os assuntos? Por que nos gozava quando o achávamos no meio da folhagem? Por que nos chamava para o café, quando a empregada começava a arrumar a mesa? E, o mais importante, a demonstração de afeição por mim. Ele não pensava duas vezes, para me ver. Jogava-se do poleiro, com risco de morrer da queda, e ia à minha procura.
Estas memórias são um reconhecimento do que ele representou para nós, como também para que a sua passagem em nossas vidas seja sempre lembrada.